
Temos tendência a dizer: “ensinei o meu cão a sentar, deitar ou saltar”. Na realidade, o cão já sabia fazê-lo — o que fizemos foi dar um nome à ação e incentivá-lo a fazê-la quando pedimos. Mas há dois comportamentos sem base natural que precisamos mesmo de ensinar: andar com trela e ficar sozinho.
Aprender estes comportamentos requer uma total ausência de medo — precisamente porque não são naturais, podem por si só gerar medo. Existe uma elevada percentagem de cães com graves problemas comportamentais quando andam com trela, problemas que não acontecem quando andam soltos.
Quando algo nos assusta, o corpo prepara-se com energia extra para fugir ou lutar. Preso pela trela, a fuga desaparece e as opções ficam limitadas: reatividade (tentar criar distância) ou agressão. Muitas vezes o stress mantém-se elevado depois do acontecimento — horas ou dias. Pelo condicionamento clássico, muitos cães associam tensão na trela a excitação elevada ou medo, e o passeio começa com stress desde o primeiro momento — mais excitação, mais tensão, mais stress.
Dicas para melhorar os passeios:
Trelas longas dão maior margem de movimento e capacidade de comunicação. Coleiras de picos ou estranguladoras causam dor, aumentam medos e criam associações negativas — use coleiras confortáveis ou peitoral/arnês.
Não excite o cão antes de sair: pegue na trela e caminhe em silêncio.
Evite horas de excesso de atividade e procure por vezes zonas mais silenciosas.
O passeio não é um transporte de A para B: descobrir cheiros é muito estimulante. Incentive o cão a farejar livremente — ajuda-o a abstrair-se de ambientes visualmente estimulantes.
Inclua tempo sem trela, para correr ou interagir com outros cães, quando possível e seguro.
Nunca o obrigue a aproximar-se do que o assusta; contorne ou evite essas situações. A sua calma ensina-lhe que quase nada é perigoso.
Se houver tensão na trela, pare; quando a tensão termina, continue a caminhar. Os cães puxam “porque podem” — quando puxar deixa de resultar, param ou reduzem a intensidade. A trela é uma ferramenta de educação e segurança, nunca de correção ou punição.
Por fim, não transforme o passeio numa parada militar: a caminhada serve para o cão se relacionar com o mundo e satisfazer necessidades físicas, sociais e emocionais. Não precisa de andar sempre ao seu lado — quando precisar de o ensinar a ir ao lado, mostre-lhe que isso é muito bom.
Autor: Santi Jaime Vidal Guzman — Mas Que Guau

